
A Nova São Paulo
por DAN SHAW

matéria publicada na edição online do The New York Times em 12/3/2006
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A Pinacoteca do Estado é um exemplo notável de como uma construção histórica pode ser preservada e transformada em um museu do século 21. Com paredes de tijolos à mostra como se fosse uma ruína antiga, o edifício datado de 1897 possui agora uma série de pátios internos iluminados naturalmente com esculturas de Rodin e Niki de Saint-Phalle, e uma coleção impressionante que vai de paisagens do século 19 a obras abstratas do século 20 de modernistas pioneiros, tais como Waldemar Cordeiro e Willys de Castro.
Os paulistas têm muito orgulho de sua arquitetura modernista, especialmente o Copan, um prédio de apartamentos de 1950 projetado por Oscar Niemeyer, que trabalhou com Le Corbusier nas Nações Unidas e criou a capital, Brasília. Em um outro local, uma reformulada estação de trem de 1930, a Sala São Paulo, foi transformada em uma fascinante sala de concertos contemporânea. O Museu de Arte de São Paulo (MASP), localizado em um edifício-marco de 1968, projetado por Lina Bo Bardi, suspenso sobre um vão com colunas nas extremidades sem nenhum apoio interno, possui uma coleção que inclui obras de Renoir, Cézanne, Manet, Degas e Modigliani.
Como andar pela cidade de carro é fundamental, é fácil passear por horas nos Jardins, um bairro convidativo aos pedestres, que teria chamado a atenção do ecologista urbano Jane Jacobs, que escreveu que uma "vizinhança de rua de uma boa cidade alcança um equilíbrio ideal entre a determinação de seus moradores em manter a privacidade essencial e seus desejos simultâneos por níveis divergentes de contato, diversão ou ajuda das pessoas ao redor." Situado em um traçado retangular e inclinado de ruas estreitas, os Jardins possui incontáveis restaurantes, cafés com mesinhas nas calçadas e luxuosos espigões de apartamentos separados das calçadas por portões e jardins luxuriantes.
"Quando você está nos Jardins, é muito fácil pensar que você está no país mais rico do mundo," disse Lauer Alves Nunes dos Santos, um professor de semiótica que conheci enquanto almoçava no Prêt Café, um pequeno restaurante dos Jardins escondido em uma casa reformada. Na condição de um americano fazendo uma refeição ao dar uma volta pela vizinhança — no qual um bufê organizado com bonitas travessas de vidro e panelas de ferro faz você se sentir como se tivesse dado de cara com um almoço de comemoração particular — eu era uma novidade. A proprietária, Beatriz Ticcoulat Alves de Araújo, veio me conhecer e perguntar se eu tinha gostado do nhoque, cozido de peixe com molho de camarão, abobrinha recheada, arroz com feijão, salada verde e pudim de coco. "Este é o tipo de comida que eu te serviria se você viesse almoçar em casa," disse ela.
Não há nada caseiro no sexy e ameaçador Unique Hotel. Projetado por Ruy Ohtake, o hotel em forma de arca parece um set para um filme de James Bond, com seus vidros escurecidos, portas secretas e seguranças vestidos com ternos. Para chegar lá, meu táxi passou pelo Jardim Europa, um bairro de ruas arborizadas com casas de estilo barroco e modernista escondidas atrás de muros altos — o equivalente brasileiro de Beverly Hills. Este “momento Los Angeles” continuou no bar localizado na cobertura do Unique – Skye – onde coquetéis são servidos ao ar livre, ao lado de uma piscina estreita com vista panorâmica para a cidade. Mesmo em uma noite nublada, há um brilho crepuscular, com o terraço iluminado artificialmente por holofotes cor de rosa.

Os finais de semana de verão tendem a ser tranqüilos em São Paulo, pois os moradores se dirigem às praias ou montanhas, mas muitas das famílias elegantes e jovens profissionais que ficam na cidade acabam indo jantar no Spot, um agitado restaurante em forma de caixa de vidro. O cardápio apresenta saladas verdes com inúmeros ingredientes, massas inovadoras e pequenos steaks com molhos deliciosos e batatas fritas crocantes. No entanto, foi difícil para mim me concentrar na excelente comida, pois um desfile de mulheres bronzeadas em curtos vestidos amarrados no pescoço se encontrava em uma mesa onde dois homens belos como artistas de cinema continuavam a pagar rodadas de bebidas para todos. Parecia um episódio de "Sex in the City" dublado em português.
Depois do jantar, fui ao Bar Balcão, onde um sinuoso balcão de dois lados serpenteia pelo restaurante. "Este bar é popular entre artistas, poetas e acadêmicos," disse Ana Amélia Genioli, uma arquiteta que estava jantando tarde. "Mas São Paulo não é o Brasil. Você precisa visitar o interior." Expliquei que eu era mais fascinado por cidades, e disse a ela o que um artista brasileiro, Ronaldo Bregola, havia me dito: "Claro que São Paulo não é o Brasil, mas Paris não é a França e Londres não é a Inglaterra."
São Paulo é certamente uma cidade de classe mundial no que se refere às compras, não importa o seu gosto ou bolso. Caçando e pechinchando na Feira dominical da Liberdade, comprei meus artesanatos baratos: bonecas para crianças, colheres de madeira e echarpes de seda tingidas à mão em cores tropicais. Me entupi de chinelos de dedo na Page Calçados, que se parece com qualquer loja de calçados de ponta de estoque que eu evito no meu país. É uma região atacadista central e vende Havaianas em inúmeros estilos e cores que são raramente importadas para os Estados Unidos por apenas 10,99 a 13,99 reais o par ($4,95 a $6,35, a 2,2 reais por dólar).
Mas as compras de luxo são ainda mais atraentes — mesmo se você estiver apenas dando uma olhadinha. Eu não tinha certeza se deveria visitar a Daslu, a loja de departamentos que tinha sido descrita como uma fortaleza de consumo conspícuo na The New Yorker três anos atrás. Mas então conheci Walkiria Vaney, uma brasileira que morava em Nova York e descreveu a Daslu como sendo muito maior e mais grandiosa que a Bergdorf Goodman. Tive que conferir com meus próprios olhos.
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Dan Shaw escreve frequentemente sobre design.
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